O tempo e o vento na cidade

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O tempo e o vento na cidade

Rio Pinheiros há 500 anos e a cidade de São Paulo moderna

Ele atravessava a rua de costas para o Rio Pinheiros. Na tarde ensolarada, o trânsito estava livre. Parou no meio da travessia e vislumbrou a reta que terminava lá na Faria Lima. O asfalto e os prédios modernos revelavam a força da cidade se insinuando e se misturando a algumas árvores. Roçavam o céu azul e brilhante.

 

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De um lado, a entrada da estação de trem, tranquila no sábado. Mas não imersa no completo silêncio, com o movimento de camelôs com seus quiosques alinhados nos muros e alguns trabalhadores conversando e fumando.

 

 

Logo à frente da estação, um bosque, por entre muros, nas cercanias de um prédio gigante, onde outrora ficava a danceteria Kremlin. Tinha ido muitas vezes lá na juventude.

 

Ainda sentia, no ar, o ritmo daquelas noites misteriosas, em meio à fumaça do ambiente escuro, o som alto, pessoas desconhecidas, esperança e músicas que, naquela época, já eram do passado.

 

Agora, à esquerda da rua, um outro edifício portentoso, habitado por banqueiros e grandes empresários, com seguranças à porta, conversando por walkie-talkie a cada chegada de entregadores. A paisagem só não se configurou um quadro completo porque estava em movimento.

 

Era movimentada pelo vento, que vinha da Faria Lima, em direção ao rio. Um vento natural. Um vento silvestre resistindo ao concreto urbano. O mesmo vento de 500 anos atrás. Um vento seduzido pelas águas do rio, seu destino natural.

 

Pensou que, em 1525, quando o Brasil ainda não estava totalmente descoberto, aquela mesma região, onde ele pisava, era coberta por uma densa vegetação tropical, parte da Mata Atlântica. O rio não estava retificado nem poluído. Era um rio mais limpo, com cursos sinuosos e áreas de alagamento em algumas partes.

 

Não importava. O sopro da natureza ainda mostrava estar vivo naquela cidade cuja grandeza desfez muita coisa, mas não tudo. O mesmo vento soprava naquele momento, desviando-se dos prédios como fazia antigamente com as árvores tão gigantes quanto.

 

 

Enquanto os carros não vinham, continuou parado. Conseguiu até fechar os olhos por instantes. O suficiente para aspirar, por meio das lembranças ventiladas pelo vento, o seu passado, os amigos que não são os mesmos, crescidos, mudados, hoje estranhos.

 

Os sonhos que se desfizeram e outros que se mantiveram, entre os quais o de ele estar ali, naquele momento. A cidade tinha mudado, mas alguma coisa continuava, algo intocado. Um local tão modificado e tão igual.

 

A mata virgem já não estava lá. Nem o Kremlin. Suas músicas cheias de lembrança foram tocar em outras paradas. Nem a continuidade de algumas amizades. O tempo buscava marcar a região com uma nova feição.

 

 

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Seus cabelos em movimento, junto com o de algumas árvores, mostravam que algo permaneceu intacto. Lembrou-se do livro de Érico Veríssimo, sobre as várias fases de uma família. Uma saga do tempo. De novas feições. Da luta por resistir, mesmo com as mudanças. O tempo e o vento. Naquele momento, o tempo passara. Mas o vento, continuava lá.

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