Ganho
Quando menino, o seu ideal era provar a si mesmo que toda gente era boa. Adulto, ele já se satisfaz com a conclusão de que pelo menos nem toda a gente é má.
Quando menino, o seu ideal era provar a si mesmo que toda gente era boa. Adulto, ele já se satisfaz com a conclusão de que pelo menos nem toda a gente é má.
Respiro o ar da cidade Na quarta-feira sobre o viaduto Lá embaixo os carros passam Eu olho as árvores, um luxo O sol resplandece nos prédios Como meu amor em mim De manhã se despediu Com perfume de jasmim E o aroma ficou no meu corpo Enquanto vago por meu destino Será isso um desatino?
De novo, o metrô. A linha verde estava esvaziada. De pé, sentia o conforto do ar condicionado e seu sopro polar. O vagão em trânsito estava isolado do calor que torrava a cidade. Era como se viajássemos em um simulador, pelo tempo e pelo espaço. Vejo então meu reflexo surgir no vidro da porta automática.
Na velhice a gente é espectro do que a gente foi. Na infância a gente é espectro do que a gente vai ser. De espectro em espectro, a gente é.
Corre, corre, lá vem o carro Corre, corre, sem parar Corre, corre, ele vem de longe Corre, corre, a acelerar Corre, corre, você tá na faixa Corre, corre, sem tropeçar Corre, corre, não vá atrapalhar Corre, corre, ele vai te atropelar.
Dois corpos não ocupam O mesmo lugar no espaço A não ser que seja Em ato de amor ou abraço De resto viajam lado a lado Muitas vezes a escutar O coração alheio que bate sem parar A locomotiva no ritmo do viajante O apressado reclama da lentidão O desencanado se sente num avião Cada
Para ele palavras falam e calam Em um bosque encantado Em uma caverna sem luz Resvalam Se falam, são um quadro impressionista Van Gogh em seu retrato na solidão Olhar impressionista, estático, introspecção Precisa forma de expressão Quando as palavras, mesmo poucas,atingem essa dimensão Mas as que calam, consentem em esconder Aquilo que não aparece,
Duas moças conversavam na mesa da doceira. Roupas modernas elegantes, se diferenciavam não só pela tinta loira de uma em relação ao castanho escuro dos cabelos longos da outra. Debatiam, com classe, sobre ideologias e sistemas de governo. Entre um ecláir e um café, a loira defendia arduamente o socialismo. Dizia que não há outra maneira
Surge um jovem de calça rasgada, olhar amarrotado Perambula na rua, descamisado Na calçada agacha e repousa sentado Na mureta do prédio apoia o corpo cansado Em plena manhã gente passa ao seu lado Indiferente, irritada, está acostumado Ele não liga nem se faz de rogado O que importa se o bairro é de endinheirado?
A notícia sobre a morte da Rita Lee chocou o menino naquela manhã em Santos. Soube no apartamento, antes de ir para a praia com os pais e os tios. Estava aprendendo a surfar sobre a velha prancha gigante de isopor, que ganhara na semana anterior. Temeu que a notícia o deixasse abalado a ponto