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Réveillon segurança

Eugenio Goussinsky

 

Foram mais de quatro horas até ele chegar à porta da festa. Deixou sua casa na Vila Brasilândia às quatro da tarde. A esposa cumpria o batente em residência de família e o filho pequeno ficou na creche do bairro. A van da empresa passou na porta dele, superando as ruas estreitas do bairro.

 

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Entrou de camisa de manga curta e calça jeans. O terno de segurança colocaria no vestiário do beach club do litoral, onde ocorreria a festa de réveillon. Devia R$ 150 na mercearia vizinha e, com o cachê de R$ 600, poderia reservar um pouco para o aluguel.

 

 

 

Cruzou a Serra do Mar olhando pela janela e pensando na vida. Lembrou-se do dia em que, moleque ainda, tomou um susto quando o seu José abriu o portão, ao lado do muro onde estava, gritando que o Corinthians era campeão. Deu um sorriso intuitivo e passou a torcer pelo Corinthians, o time do susto e do sorriso.

 

Uma conversa ou outra cortou a viagem até o litoral. Falaram sobre o salário dos seguranças e de como valia a pena aquele serviço, em comparação com a remuneração de outros. “Ainda dá para comer o que sobra da festa”, disse um deles. “Cê é louco”, completou outro, satisfeito.

 

Vestiram o terno, engomaram os cabelos e colocaram os fones no ouvido, para comunicação entre os setores. Já na porta de entrada, ele viu a fila crescer em poucos minutos. Adolescentes que pagaram mais de R$ 1,5 mil pelos ingressos se colocavam à sua frente, esperando a autorização para entrar.

 

Filhos de empresários bem-sucedidos, entre outras profissões. Muitos inseguros, presos à aparência, pouco acostumados à frustração. Mas em busca de encaixar seus potenciais de alguma maneira. Camisas de linho abertas, vestidos leves, óculos escuros à noite. Cabelos cuidadosamente desalinhados.

 

Diante deles, o segurança sentiu um misto de inveja e afeto. Veio-lhe a sensação de que teria uma oportunidade de se sentir importante diante daqueles jovens. E aproveitou o fato de muitos utilizarem documentos com idade adulterada para serem admitidos como maiores de 18 anos.

 

Um deles ficou por quase uma hora esperando para entrar. Naquele momento, o segurança se sentiu o dono da festa. O rei. Sentiu o poder do cargo. Não era pouco. Era tudo o que havia ali. Seu terno e gravata o elevavam à imagem de um presidente da República durante a posse. O centro das atenções. “Meu jovem, veja bem, aqui não é brincadeira, tem que ser honesto”, repetia.

 

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Repetiu até não conseguir mais segurar. Sabia que, pela influência dos pais, correria até risco se insistisse em barrar alguém. Mas, antes de liberar, dentro daquela estrutura cheia de injustiças, fez questão de se despedir de seu protagonismo momentâneo com dignidade: “Positivo”, falou pelo fone, como se informasse subalternos de sua decisão. “Podem entrar”.

 

 

 

 

A rapaziada entrou. O alarido de gírias contemporâneas se espalhou, logo ofuscado pelo som forte do MC. A imagem e a importância do segurança foram diminuindo na mente apressada dos moleques. Nem o reconheceriam se um dia o vissem novamente na rua, de calça jeans e camisa curta.

 

A ele, restou, entre uma observação e outra durante a algazarra e as danças, esperar até que a balada acabasse. Faltava pouco para amanhecer. O suor não desfez o penteado engomado. O terno, ainda que amassado, permanecia digno. Voltou com os companheiros para o vestiário. Recolocou a camisa curta, com certo alívio.

 

Nas pausas entre os cochilos, com a cabeça recostada no banco, contemplava a paisagem da serra se misturando aos primeiros raios de sol. Despertou mesmo quando a van entrou pelas ruas apertadas de seu bairro. O comércio estava fechado naquele primeiro dia do ano. Nem parecia que, por entre aquelas casas simples, o caos da periferia tomava conta da região a cada dia.

 

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Iria pagar, na manhã seguinte, a dívida na mercearia. Antes, foi para casa. Beijou as testas da mulher e do filho. Eles dormiam. As árvores, que cercavam ruas esburacadas, ecoavam o som do silêncio. Sua vida poderia aparentar tristeza. Mas não era o que prevalecia nele naquele momento. Esse era o seu verdadeiro poder.

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