As cinco estações

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As cinco estações

Metrô Xuxa infância

Eugenio Goussinsky

 

Três adolescentes entraram no vagão do metrô. Dois eram mais altos, quase se despediam da infância. O outro, menorzinho, não. Ainda dava para perceber nele um olhar do menino que brinca com o boneco ou bate figurinha no pátio da escola. Disse com uma vozinha fina que tinha cheirado cola. Os três riam e faziam algumas arruaças entre eles.

 

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Ao lado, um jovem de calça jeans continuou no celular, entre a porta e a cabine do condutor. Fingia não ver os três, apesar do constrangimento provocado pela fala alta, pelas gargalhadas um tanto agressivas e pelas cambalhotas, apoiando-se nos tubos de aço fixados no teto. Chegaram a bater com uma chave na porta da cabine, para importunar.

 

O riso deles, em meio às piadas, era ouvido por todos, que mantinham o silêncio. Um ou outro, certamente, teve o ímpeto de mudar de lugar, de se afastar, mas a chance de despertar a atenção dos três os paralisou. Não era exatamente medo. Era o receio de se tornarem alvo de deboche.

 

Eles eram mesmo debochados. Cada um levava nas mãos pequenos cartões de alguma promoção. Estavam amassados. A roupa também era informal: camisetas desbotadas, bermudas escuras e chinelos. O menor vestia um boné virado para trás.

 

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Diziam-se da quebrada. “Mano, abrir a geladeira lá em casa tá dando até eco. Só tem água e um restinho de feijão duro.” Os três caíam alto na risada. Continuavam pulando, indo de um lado ao outro. Um dos mais altos deixou cair os cartões no chão. Foi uma zoeira só.

 

“Ih, alá o maluco! Soltou o baralho de mendigo no meio do trem! Que vergonha, jão!”

 

O idoso que estava na vaga dupla, prioritária, saiu para a estação. O mais novo brincou com um dos mais velhos.

 

“Ih, alá! Descolaram uma vaga pra tu, asilo! Corre lá, vovô.”

 

Mais gargalhadas, mais agitação, mais cambalhotas. Numa delas, o mais jovem se assustou.

 

“Ô mano, segura aí, vou cair, minha mão tá escapando.”

 

O outro ajudou, mas tirou sarro.

 

“Ué, o vovô aqui que tem que salvar o bebê de fralda?”

 

Foram cinco estações em que eles protagonizaram os diálogos. Em meio ao silêncio dos outros passageiros. Uns já estavam mais acostumados e prosseguiam com a leitura. Outros olhavam espantados, fingindo não perceber a algazarra. Eles só dividiram a atenção quando, antes de uma parada, o alto-falante anunciou uma promoção. A voz era conhecida, principalmente dos que sabiam o que significava “baixinho”.

 

O anúncio sonoro veio junto com uma imagem nos monitores de mídia.

 

“Uma viagem de volta à infância para te fazer ser baixinho de novo. E você que é baixinho, venha com a gente também. Vamos sonhar juntos. Use o metrô e venha me encontrar. Beijinho, beijinho e tchau tchau.”

 

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As portas do vagão, então, se abriram.

 

O anúncio provocou uma reação inesperada. O menor ficou um instante olhando para o painel. A voz o seduzira. Sabia quem era Xuxa, ele demonstrou. Apesar de não ter vivido os tempos do Xou da Xuxa.

 

Nem deu a cambalhota de despedida. Os mais velhos já não tinham mais tempo para entrar nesse sonho.

 

O pequeno não resistiu. Deu o salto para fora do vagão, balbuciando:

 

“Baixinho, baixinho.”

 

Foi mais um motivo para os outros dois, já na plataforma rumo à rua, prosseguirem com a gozação.

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